domingo, 26 de abril de 2009

Raios! RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRaios!


Ela esta por aqui! Consegue ver? Alí, ó! Já sumiu! Aquela mesma sensação que temos quando praticamos nado de costas: impossível se concentrar totalmente na natação, impossível nadar e ver quão perto a borda da piscina está. Oras, quem quer esmagar a cabeça e morrer? Ninguém quer bater as botas porcausa de uma borda de piscina assassina. Tentamos, ao mesmo tempo e sem obter sucesso, nadar e não nos machucar. Preocupação inutil essa, na minha opinião! Mortal mesmo é o amor. Mais mortal que Beethoven e seus colegas, aquela cambada de surdos geniais, quando declamam poesia e regem orquestras paradisíacas (pro INFERNO com a Nona Sinfonia). Se for me telefonar, faça isso antes que o açougue abra! AHHHHH RRRRRRRRRRRRRRRRRRRAIOSSSSS!!!!

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Lembro de tudo. Menos do título...



Juro que vim aqui pegar algo. QUE OS CÉUS CAIAM SOBRE MIM, SE ISSO FOR CALÚNIA. Lembro de tantas coisas. Aquelas lembranças que há cinco segundos atrás, não estavam em lugar algum, mas agora estão. Elas bem que podiam estar nas Bahamas, procurando o que fazer. Mas não, estão aqui e parecem gargalhar ao me verem desnorteado, a ponto de não lembrar o que vim pegar por aqui. Do quarto até a sala, são três passos e meio, direita, esquerda, direita esquerda, direita esquerda e direita. Não sei bem quantas sinapses nervosas, mas deve estar na casa dos milhões. Há seis, quer dizer, há quatro segundos atrás, eu sabia exatamente o que queria. Agora não sei mais. Era algo simples: pensar na necessidade de pegar algo em outro cômodo (idéia que surge da própria necessidade de pegar algo no outro cômodo), locomover para o outro cômodo (isso pode ser feito em pouquíssimo tempo por nós) e pegar o safado – caso eu lembrasse o que era. “Que isso gente! Acontece com todo mundo. Não se preocupe”. Bom, morrer, também acontece com todo mundo e eu me preocupo. Minhas preocupações: amor, sexo e morte. Mas agora, tenho de me preocupar com esquecimentos pouco imaginativos como esses. Se pelo menos tivessem me deixado umas sanfonas e uns violinos. Aí seria esquecimento com música psicodélica.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Odetta! The Queen.




Trimiliques, tremedeiras e não sei mais o que. Arrepios periodicamente irregulares, mas sem suor algum. Devia ser o frio. Frio? Frio de que? De onde? Amanha mesmo eu compraria um termômetro novinho em folha...Podia ser malária! Podia sim. Mas não era. Malária não deixa ninguém sorrindo. La Cucaracha quando bem cantada nos faz sorrir. Tom Jobim fazendo um grego sambar pelos morros cariocas nos faz sorrir. Poesia alemã e cerveja podem até matar, mas ainda sim constroem sorrisos por onde passam. E Odetta que também faz sorrir, parecia brincar comigo, parecia se divertir ao me ver daquela forma: perturbado até os dentes e sorrindo de orelha a orelha. Ela tinha que parar de catar. Eu precisava desligar a música. Aquilo estava acabando comigo. Mas eu não conseguia! Odetta e sua voz, declamando as canções que inspiraram Bob Dylan, Janis Joplin e Joan Baez colocava nos meus ouvidos e amaravilhava meu cérebro com seu blues-jazz próprio dos anos 60, sem deixar de lado uma quase implícita simplicidade que provinha das experiências folks que viveu em São Francisco.


Havia tempos que algo musical não surtia um efeito tão devastador em mim. Sim, sim, eu já conhecia “The Queen of American folk music” – nomenclatura dada por Martin Luther King Jr. – há alguns anos, mas ela nunca tinha me deixado sem dormir. Odetta que morreu dia 2 de dezembro do ano passado – dia do meu aniversário – conseguiu ser mais mortal que o amor e causar mais calafrios fantasiosamente agradáveis que Robert Johnson em seus dias mais sombrios. Era daquelas que entregava mais que o próprio coração quando cantava. Mesmo a própria vida era pouco para dar de presente à música.


Ela cantou músicas de Bob Dylan já em 1965. Homenageou sua amiga Ella Fitzgerald no álbum To Ella. Foi uma das pioneiras do folk, durante o renascimento comercial do gênero nos anos 50, fazendo uma série de shows acompanhada apenas de “Baby” (um violão feito por ela mesma). Escreveu e interpretou belas canções de Blues, experimentando também arranjos mais complexos quando se juntava a uma banda para tocar jazz. Spirituals songs fizeram parte de seu repertório, envolvendo-se também em movimentos a favor dos direitos civis dos negros. Foi atriz. Foi divorciada – 2 vezes. Foi a primeira “coisa” que levou Bob Dylan a música folk. Foi uma credencial para tornar Janis Joplin querida entre os rapazes. Foi minha maravilhosa insônia por uma noite, em que sua música me consumiu por completo.


Download Odetta - And The Blues

(ww.megaupload.com/?d=77SNQTDZ)

*Acresce "w" e cole no espaço de endereços de sites no navegador



  1. "Hard, Oh Lord"
  2. "Believe I'll Go"
  3. "Oh, Papa"
  4. "How Long Blues"
  5. "Hogan's Alley"
  6. "Leavin' This Morning"
  7. "Oh, My Babe"
  8. "Yonder Comes the Blues"
  9. "Make Me a Pallet on the Floor"
  10. "Weeping Willow Blues"
  11. "Go Down, Sunshine" - 2:21
  12. "Nobody Knows You When You're Down and Out"


domingo, 29 de março de 2009

The Super, Super Blues Band



Tempos difíceis para o Blues!


Nos finais dos anos 60, a Chess Records já não ia bem das pernas e Leonard Chess não ia bem do coração. Haviam sido 20 anos, nos quais Chicago, muito mais do que ter respirado intensamente o Blues, teve-o como formador de sua identidade: a conexão explicita entre a “sujeira” sulista americana e o desenvolvimento urbano explosivo pós Segunda Guerra. Se você era negro, cansado de surrar suas mãos naquelas plantações algodoeiras, ou se a calma dos campos quase explodia sua cabeça trazendo a tona os terrores da guerra, Chicago era a sua cura – ou a sua desgraça. E Leonard Chess, um polonês “moribundo” e branco, quando, junto de seu irmão Phil, fundou a Chess Records em 1950, pensando apenas em ter seu próprio Cadillac, nunca havia imaginado que seria o responsável por transformar o Blues no combustível musical de Chicago, lançado Muddy Waters, Hownling Wolf, Chuck Berry, Buddy Guy e muitos outros.


Uma das grandes ironias do rock and roll foi o modo como ele desbancou o Blues. Uma quase história de filho que se torna melhor que o pai, ou do discípulo que vence o próprio mestre. Todos sabiam que os Beatles, os Rolling Stones, Led Zeppelin, Eric Clapton ficariam famosos. O Blues e o rock de Chuck Berry eram suas raízes, eles apenas tocavam isso mais rápido e eram brancos.

De meados da década de 60, até 1970, a Chess Records procurou formas de agüentar a onda branca do rock and roll. Nesse período surgiram grandes jams entre os integrantes do selo, álbuns com um aspecto mais informal, muito paltados no “feeling” e com bastante improvisações nos vocais e nas guitarras, o que acabou remetendo a essência de liberdade musical do Blues, mas ainda com arranjos bem modernos e trabalhados. Infelizmente, não era mais tão cool assim tocar Blues, e essas grandes obras não receberam o valor merecido.


Em 1968, um ano antes dos irmãos Chess venderem sua gravadora e Leonard morrer de complicações cardíacas, Bo Diddley, Muddy Waters e Howling Wolf tiveram uma idéia, enquanto se embriagavam naquelas boas e velhas noites alcoólicas de Chicago. Formar uma super banda de Blues. Claro, que debateram extensamente o assunto, porque esse negócio de montar banda era considerado coisa de branco e obviamente, era difícil ajeitar as idéias com todo aquele whisky na cabeça.


The Super Super Blues Band – nome bem criativo – foi criada poucos dias depois. Os três colocavam sangue, suor, amor e loucuras alcoólicas em suas guitarras – Howling Wolf também cuidou da gaita – sendo acompanhados em segundo plano por piano, baixo e algumas backing vocals. O resultado foi estupendo justamente por nos levar às raízes do blues de uma forma diferente. Eles não procuraram um som mais rural e simples, mas sim, tocar músicas que gostavam, dialogando livremente um com outro. Nas músicas é possível ouvir vários improvisos de guitarras e conversas cantadas. Há uma real conexão entre os três bluesmen.


Em I´m a Man, interpretação para Manish Boy de Willie Dixon, Bo Diddley exclama “I´m a mannnnnnnn” e obtém como resposta de Muddy Waters “You ain´t no man...man, I´m a man...” e vai desenrolando a música, improvisando com partes de Manish Boy e partes inventadas, alternando-se com Bo Diddley na cantoria. Os uivados de Howling Wolf em Long Distance Call assustam as backing vocals, como se fossem realmente feitos por lobos. E as invenções são tantas, que a música passa a ter 9 minutos, nem um pouco enjoativos. A maior amostra da informalidade do trabalho fica na faixa Diddley Daddy, em que Bo Diddley acompanhado das backing vocals entoam o carismático refrão “Diddley, diddley, diddley, diddley, daddy” e depois desafiam os outros dois a cantar o refrão, “I don´t believe you can do it, Muddy”.


Na época do lançamento desse álbum, entitulado Long Distance Call, muitos o acusaram de ser um trabalho mal feito, em que as três lendas fizeram tudo às pressas e não tiveram grandes cuidados na preparação do disco. Entretanto, essa liberdade era a idéia central. Tentar gravar uma reunião descompromissada de amigos que tinham em comum o gosto pelo Blues. No fundo no fundo, eles queriam resgatar um pouco da essência do ritmo que perdia cada vez mais a sua cara, devido aos bonitos Cadillacs estacionados nas casas dos bluesmen e ao surgimento do rock and roll.




Download The Super Super Blues Band - Long Distance Call

(http://ww.easy-share.com/1904116080/MBSSBB.rar)

*apenas acrescente "w" para formar "www" e cole na barra de endereços.

*senha mississippimoan


Tracklist:

1 - Long Distance Call

2 - Ooh baby / Wrecking My Love Life

3 - Sweet Little Angel

4 - Spoonful

5 - Diddley Daddy

6 - The Red Rooster

7 - Goin´ Down Slow






quarta-feira, 11 de março de 2009

The .357 String Band - Não é bem o bluegrass do seu vôvo, é STREETGRASS!!!




“Eles estavam tocando bluegras” a velhinha disse.

“Bluegrass não é o que chamaria isso” o velhinho respondeu.

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Dentre todas as gangues malvadas das quais fui membro, nunca pensei que encontraria, logo em Milwaukee (Wisconsin), rapazes tão durões quanto aqueles. Eram apenas quatro e não tinham caras de genros bonzinhos. Isso mesmo, queridinha. Sua mamãe não gostaria de conhece-los. O tipo de pessoas que as outras chamam de má companhia. Tatuagens – tatuagens de macho – botinas que rosto algum iria esquecer se as encontrasse pelo caminho, camisas pretas ou de caminhoneiro, e o principal, nada de sorrisos marotos. Foras-da-lei cheios de classe. É isso o que eram.


Não foi me dito seus nomes. Era parte do código das gangues daquela época – hoje em dia, não acredito que ainda haja esse tipo de coisa. Também, nunca disse o meu a eles, mas caso tivessem perguntado, diria que era Motoqueiro Fantasma, ou Jimi Hendrix. Mesmo assim, passamos pelos melhores momentos que cinco lunáticos, apaixonados por vacas, bacalhaus e sucos psicodélicos, poderiam ter passado.


Cowboys, hippies, palhaços pouco engraçados, mulheres da vida, palhaços realmente engraçados, punks de verdade, motoqueiros, garçonetes rechonchudas, belas garçonetes, todo o tipo de gente bêbada, encontramos todos esse pessoal barra pesada pelo caminho. Fizemos boas amizades. Cheguei a me casar com três garotas diferentes, já casadas, ao mesmo tempo. Uma noite, em uma encruzilhada, demos carona a um tal de Johnson. Apesar de calado, era um bom rapaz. Posso dizer também, que tocava o Blues como ninguém. Nenhum de nós soube dizer, de que maneira ele tirava aquele som de um violão tão estragado. Infelizmente, o bluesman desapareceu na manha seguinte. E nunca mais ouvimos falar dele.


O que nos manteve vivos nesta odisséia, foi o que meus amigos chamavam de AMPHETAMINE-FUELED STREETGRASS. Não! Não era um novo tipo de droga e sim, o som da banda daqueles quatro, chamada The .357 String Band. Uma espécie de bluegrass acelerado. Algo como um punk, cheio de anfetaminas na cabeça, vestido de cowboy e surrando um banjo a toda velocidade, ao mesmo tempo em que canta chapadão. Sendo que, vez ou outra misturava algumas viagens interessantes, mas nunca esquecendo de tocar o bom e velho bluegrass.


Nas músicas Little Black Train of Death e Fire & Hail, pude ver do que a banda era realmente feita. O bluegrass clássico, acompanhado pela linda voz de uma das moças com que me casei durante a viagem, na música Hold Me Tight, fez com que eu acreditasse, por alguns instantes, que eles poderiam ser seres com corações de verdade. E Blackship foi feita em dos raros momentos que estávamos acordados, sem o efeito daqueles comprimidinhos azuis, o que gerou algo bem diferente do que havíamos previsto.


Depois disso, nunca mais vi aqueles quatro foras-da-lei. Espero que não estejam presos...



*cole o link abaixo em seu navegador, adicionando a letra 'w'.

Download álbum Fire & Hail (http://ww.mediafire.com/download.php?sjjsxjn3ehg)



1 - Little Black Train Of Death

2 - Fire & Hail

3 - One More Round

4 - Cluck Ol' Hen

5 - Black River Blues

6 - Down On A Bender

7 - Glory, Amen

8 - Holy Water

9 - I'm Gone

10 - Hold Me Tight

11 - Darleen

12 - Long Put Down That Gospel

13 - Two White Horses

14 - Rollin' Down The Track

15 - Blackship


sábado, 21 de fevereiro de 2009

Carnaval/Cartas II/Resposta




Resposta de Raulzito

Para: Bernardo Biagioni (Carnaval/Carta II)


Ufa! Achei que você tinha perdido a cabeça. Já estava pronto para chegar em sua casa batendo a porta e gritando “Tá louco meu irmão?!?!?”. Seria engraçado se o Eustáquio estivesse no sofá nesse momento. Ele não entenderia nada.


Perdoe a minha falta de sensibilidade, responsabilizando você por toda a futura anarquia que esses dois vão causar, mas tenho motivos para isso. Não é a primeira vez que viajo com eles. Há alguns verões atrás, naquela época em que as coisas não andavam nada boas por aqui – Nelson Gonçlaves havia morrido e nos passamos a tomar de três a quatro garrafas de rum por dia, relembrando como Lulu Santos costumava ser O CARA – um pouco antes de você sumir, para ser encontrado só dois anos depois, vivendo com aquela trupe de tanguistas circenses em Stalingrado, eles me raptaram. Não me lembro de quase nada, agiram como profissionais. Só sei que em uma manhã tão bonita quanto à manhã de Sweet Virginia dos Rolling Stones, enquanto eu regava o jardim e dançava bolero com a minha nêga, os dois, vestidos de piratas e completamente chapados, apareceram do nada – como ninjas fazem – e me capturaram. Fiquei sem reação! Imagine se piratas bêbados, agindo como ninjas, surgissem de repente na sua frente? Completamente apavorante, isso eu posso dizer.


No meio do caminho para a Bahia, tive a oportunidade de saltar do carro e fugir. Mas pensei “Foda-se, estou nisso até o fim”. A essa altura, eu já estava bem doidão e tinha parado de suar. A minha comunicação com os dois começava a melhorar. Chegaram até a me dar uns bolinhos deliciosos.


Rodeado de vários litros de bebida alcoólica e de dezenas de pílulas de cores diferentes, abri um sorriso, pensando estar preparado para todo o tipo de experiência que estava a minha espera, por mais extravagantes que fossem. Bem, eu estava enganado...


O grande problema desses rapazes era o nacionalismo exacerbado. Particularmente, não tenho nada contra isso, porém quando se encontravam no ponto mais alto das alucinações, passavam dias vestidos apenas com a bandeira do nosso país, obrigavam-me a tocar corneta por horas e saiam assustando as velhinhas da região, dizendo que eram Café Filho e participavam de uma tal sociedade alternativa. Muitas das idosas não sobrevivem a esse choque.


O que fez com que eu não perdesse o juízo por completo nessa aventura foi o samba. Mais precisamente, um maravilhoso álbum que trazia a divina Elizeth Cardoso, acompanhada pelo Zimbo Trio e por Jacob do Bandolim. Estive pensando, um músico, para chegar ao ponto de receber o nome do instrumento que toca, tem que entender bastante do que faz. E o Mestre Jacob entendia. Com seu bandolim, ele conseguia englobar as músicas em uma atmosfera mágica, tornando-as quase algo de outro mundo. Considerando o repertório – cheio de Vinicius e Tom, Pixinguinha, Roberto Menescal, Noeal Rosa – cantado por uma das mais memoráveis vozes já existentes na música, você deve entender bem, o quão maravilhoso é a experiência de ouvir esse clássico. De samba conheço pouco, mas para mim, sem dúvida alguma, essa é a melhor gravação existente do gênero.


Espero que tenha entendido a profundidade da enrascada em nos meteu. Agora não tem mais volta. E quer saber? Foda-se, estou nessa até o fim.




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Carta II

De: Bernardo Biagioni
Para: Raulzito

Tudo bem, eu explico porque eu convidei aqueles dois ‘canibais fumadores de erva’ para a viagem. Ontem nós saímos de madrugada para dar uns tiros. Pegamos uma arma de paintball enferrujada e fomos para um trilho de trem abandonado que fica perto lá de casa. A brincadeira era a seguinte: empurrávamos alguém para frente e começávamos a disparar sem dó nem piedade. Tudo estava correndo bem, até que um dos nossos perdeu o controle e disparou contra a janela de um prédio. Tivemos que ficar abaixados na grama até que a polícia desistisse da detenção. Enquanto os cães farejadores faziam seu serviço sujo, a gente conversava sobre extraterrestres, amigos abduzidos e seres geneticamente modificados.

Vou te confessar que o Antônio estava trincando. À medida que as histórias iam se desenrolando, o sujeito seguia no exercício silencioso de comprimir todos os músculos do corpo, uma nítida reação de ansiedade, pânico e inquietação. Depois, quando já estávamos em um posto de gasolina, ele veio caminhando baixinho na minha direção e perguntou: “Cara, aqueles casos eram de verdade?”. Raul, veja bem: Eu sentia correr uma pontada de fascinação por cada extremidade daquele corpo – O Antônio estava se revirando na vontade de encontrar um extraterrestre e desencadear de vez o misticismo encrespado em cada poro de seu cérebro. Então, sem perder o controle, coloquei minha mão direita sobre seu ombro e exclamei com convicção: “Venha com a gente para o Carnaval. Você vai encontrar todas as respostas que desnorteiam os seus pensamentos. Todas as suas dúvidas serão preenchidas com certezas absolutas e os seus devaneios mais íntimos serão esclarecidos um a um”.

Quanto ao Flávio, o outro ‘canibal de erva’, ele entrou nessa por forças surpreendentes do cosmos. Estávamos em algum bar conversando sobre a Sensação de ser Brasileiro, Mitos do Carnaval e descobrir uma Força interior e acabei fazendo o convite. Acho que todos nós estivemos remando no mesmo barco há algum tempo sem saber. Essa Viagem será uma chance de mergulharmos no limite da nossa Consciência para tragar e beber os distúrbios inverossímeis da nossa mente. Lembro quando li Aldous Huxley pela primeira vez: “Se as portas da percepção estiverem abertas, você verá o mundo como ele realmente é: infinito.” É isso, entende?

Bom, agora nos resta brindar a infinitude da nossa alma e encarar de cabeça as próximas vibrações. A hora está chegando e, quando for o momento certo, poderemos gozar a essência de todos os sentidos da nossa Alma e sentir, pela primeira vez, o Poder de ser Brasileiro.

Bon Voyage,

Bernardo Biagioni

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Carnaval/Carta I/Respota



Resposta de Raulzito

Para: Bernardo Biaigoni (Carnaval/Cartas I)


Maldita memória essa sua heim! Ainda bem que estou aqui cuidando do resto, se não, bem, se não seria melhor nem imaginar. Eu te avisei! Deixei até um bilhetinho na maçaneta da porta. "TRAGA CAMELOS". Ninguém deve subestimar a utilidade de um animal desse porte. Caso não saiba, camelos podem ficar meses sem beber água. Dizem por aí também que eles nunca se cansam. E caso ficarmos perdidos (posso ver que vc, como eu, já esta contando com isso, ainda bem!) podemos nos alimentar da carne deles.


Lembre-se que nesta terra tudo pode acontecer. Acordar com Carmem Miranda não é surpresa para ninguém. Tome cuidado. E não converse com estranhos, se não pode acabar igual ao gringo que conhecemos no carnaval passado. Ele vinha com aquela conversa cheia de sotaque “Oba! MulHHer pêlada! Brêjah! Samba! Mulata Shakin!” e tudo mais. E no final das contas, queria o mesmo que todos os outros sempre querem: comprar sungas amarelas e montar uma banda de samba. Banda de SAMBA! Se isso não for pecado, não sei mais o que é. Imagina se chegam pro Cartola e perguntam “Ae Cartola, quer montar uma banda de samba?”. Tiro na nuca, com certeza.


Da última vez que o vi, tinha montada a tal banda de samba, Hi-Fly Orchestra, que na verdade parecia mais uma banda de mambo-jazz tocando algumas músicas brasileiras e Jimi Hendrix. Pois é, incluiram Jimi Hendrix na parada. Realmente, ele não tinha entendido o verdadeiro swing das coisas por aqui, ou toda aquela birita acabou por deixa-lo louco. Quem em santa consciência começa tocando Carioquinha, depois, mantendo um ritmo parecido, pula para Crosstown Traffic, do papai Hendrix e ainda tem a cara de pau de chamar a bela voz de Miriam Aida para cantar Chove Chuva do Jorge Bem? Tudo isso em um mesmo álbum, chamado Mambo Atômico. Sim, sim, como eu disse, tem mambo nessa bagunça. A música que da título ao projeto é um mambo, caribenho mesmo, extremamente bem arranjado, muito bonito. Eita gringo loco esse viu.


Estarei acampado em frente a minha casa te esperando.

Bye Bye.


Raulzito

*Não acredito que aqueles dois canibais fumadores de erva vão nos acompanhar. A responsabilidade é toda.


Destinatário: Tempos Estranhos


Download Hi-Fly Orchestra - Mambo Atômico




01. Carioquinha
02. Polonesa feat. Miriam Aida
03. Crosstown Traffic
04. Mrs. Shing-A-Ling
05. Hi-Fly Stomp
06. Mambo Atomico
07. Afro-Boo
08. Chove Chuva feat. Miriam Aida
09. Gettin' Down
10. The New B!
11. SP Samba

Vídeo da Hi-Fly Orchestra


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Carta I

De: Bernardo Biagioni
Para: Raul Sampaio

Pode ficar tranquilo que já estou preparado para o Carnaval. Acordei hoje cedo e montei os dispositivos que manterão os morcegos afastados do carro. Vamos precisar de água. Muita água. Receio que vamos nos perder pelo caminho, mas também tenho estudado alguns mapas. Acho que renderá uma boa história, se você quer saber. De repente uma reportagem que poderá mudar a vida das pessoas. Coloquei na mochila alguns livros que podem lhe interessar, inclusive o Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Vamos precisar de ajuda profissional para conversar com aquelas meninas do campo. Ah! Não esqueça da barraca. Tentei conversar na pousada hoje e me falaram que o estabelecimento havia sido alagado na última madrugada. O mais estranho é que a última vez que choveu naquela região foi em Junho do ano passado. De qualquer forma, o sujeito que me atendeu lá do outro lado não parecia estar mentindo. Eu sentia correr pela fiação o pânico que regojizava sua espinha vertebral.

Hoje cedo, passei no supermercado e garanti alguns alimentos - Estão falando que até o final da semana não haverá muito o que comer por aqui.
Já separei uma quantidade exuberante de pilhas. Serão necessárias muitas horas de energia. A sua fantasia de dançarino também já está empacotada. Não encontrei o chapéu de marinheiro, mas vou procurar amanhã cedinho. Fora isso também tem os CDs. Pensei em deixar alguns discos aqui, acho que não precisaremos de nada muito pesado nos próximos dias. Selecionei uma grande quantidade de músicas caribenhas, havaianas e cubanas. Também vou levar Jorge Ben, Bezerra da Silva, Adoniran Barbosa e Gotan Project - As garotas podem ficar a fim de dançar um tango mais acelerado quando a noite cair. O violão vai ficar. Assim que chegarmos, podemos invadir uma loja de instrumentos e recolher tudo que for necessário. É Carnaval, o dono não vai nem notar. Tem ainda as vodkas, as cervejas, a tequila e o Rum. Pensei em misturar tudo e levar uma garrafa só, mas uma atendente de telemarketing me aconselhou que não seria uma boa idéia. Bom, como eu disse no começo, já estou preparado para o Carnaval. Não ha com o que se preocupar - Logo,logo estaremos sentados no carro e poderemos sair acelerando por aí.

Ciao,

Bernardo Biagioni